São José do Rio Pardo, ,

30/Mai/2020 - 09:54:32

Entrevista: Economia em tempos de pandemia

Redação

MARCOS SCALI / Strategic Manager na empresa Abbott





Além do impacto no campo da saúde, qual será o impacto na economia decorrente da COVID-19?

 

O triste legado da COVID-19 na economia será uma espantosa destruição de valor, reflexo da ruptura econômica generalizada com enormes impactos tanto na demanda decorrente do desemprego como impacto direto em segmentos do turismo, hotelaria, entretimento e outros que também irá gerar indiretamente nos demais segmentos sobreviventes da economia no curto prazo. Iremos retroceder muitos anos. (Com Dilma retrocedemos 10 anos, e podemos retroceder muito mais por conta da pandemia).

 

Como as empresas brasileiras estão se comportando? Quão mais elas suportarão?

As empresas no Brasil possuem situações diferentes, pois alguns setores estão sendo muito exigidos e a crise é uma oportunidade. Outros estão sendo impactados diretamente com a queda da demanda e ainda podem sofrer no curto prazo a pressão por custos devido ao câmbio, o que torna um desafio complexo. Muitos setores já anunciaram demissões, estão tentando sobreviver e se ajustar. Difícil dizer o quão elas suportarão, depende de cada empresa como também depende do segmento de atuação e do tempo que ainda será necessário o isolamento. O certo é que empresas mais conservadoras (tendo reservas, caixa e pouca dívida) devem ter uma possibilidade de sobrevivência maior. No curto prazo podemos verificar o risco de uma concentração nas empresas sobreviventes, mas para o futuro muitas oportunidades devem surgir pelo desaparecimento de empresas como novas oportunidades de negócios (mesmo que tradicionais).

 

O que esperar do Brasil, quando existiam aparentes sinais de uma recuperação econômica, após anos de crise?

 

Infelizmente como diz o ditado, quando a maré baixa que se descobre quem está nadando nu, e assim o Brasil após erros de gestão econômica entrou muito mais fragilizado (nu) do que muitas outras economias no enfrentamento da pandemia. Essa fragilidade se traduz em um espaço de manobra pequeno, adicionando maior desafio para atender uma já enorme necessidade (mais de 10 milhões desempregados adicionais como previsão, aos já 11 milhões existentes). E infelizmente outro fator que tem potencializado o impacto negativo é a política. Devemos esperar tempos muito mais difíceis e enormes desafios como Nação.

 

O câmbio já apresentava uma tendência de desvalorização, mas com a pandemia se acelerou. O nível de R$ 6/USD será um novo patamar? Quais impactos mais devemos esperar?

 Com o novo governo, importante medidas estruturais estavam sendo implementadas (Reforma da Previdência e a redução da taxa de juros por exemplo) e neste novo cenário um ajuste estava ocorrendo. A partir da Pandemia, é claro que se acelerou e intensificou, de forma até demasiada, como reflexo da falta de liquidez do momento, o famoso "voo para qualidade" (ativos mais seguros e líquidos) como também de especulação financeira. Como importamos muitos produtos, mantendo-se este nível cambial o primeiro impacto inevitável será na inflação e, como consequência, podemos ter um movimento de aumento de juros para combater.

 Para evitar uma disparada do câmbio o governo tem vendido milhões de dólares, aparentemente sem resultado. Até quando as reservas do país poderão suportar?

 A atuação do Banco Central vendendo dólares tem o intuito de reduzir a volatilidade oferecendo liquidez e não de definir um patamar de cambial. Como vivemos uma situação sem precedentes, é difícil saber se não está tendo resultado. Caso o Banco Central não vendesse qual seria o patamar atual e quais os possíveis impactos que essa ruptura poderia causar? Diferente do passado, o nível de reservas é alto, comparando com cenários conhecidos, mas é dificil dizer se serão suficientes.

 Há muito tempo o agronegócio tem sido a locomotiva do PIB brasileiro. Como ele deve se comportar no cenário pós pandemia?

 ? verdade que o setor do Agronegócio Brasileiro há muito tempo é motivo não somente de orgulho, mas também de eficiência e geração de riqueza. Porém não podemos deixar de relembrar que exportamos apenas commodities e seria uma oportunidade para agregar mais valor e vender um produto acabado (Alemanha é um dos maiores produtores de café torrado e moído). A taxa de câmbio alta favorece a precificação das exportações, mas em contrapartida impacta o custo de produção, como também se traduzir em encarecimento dos produtos porém uma demanda menor no curto prazo pode equilibrar a equação. De qualquer forma os alimentos são e serão ativos muito importantes no futuro e, se o Brasil souber desenhar uma estratégia, pode se favorecer muito no médio e longo prazo.

 Falando de commodities, o petróleo terá seu fim ou ainda continuará como um termômetro da economia mundial?

 Como reflexo da pandemia, o isolamento impactou na mobilidade de forma significativa. Companhias aéreas cancelaram 95% dos voos, as pessoas não têm viajado ou mesmo transitam de carro em suas cidades (mesmo no Brasil por exemplo São Paulo, 50% da população está na quarentena). Não acredito que o petróleo terá seu fim, pelo contrário, devido à pandemia devemos retroceder muitos anos e assim investimentos em novas fontes de energia como as respectivas tecnologias para utilizá-las serão postergados. Dessa forma acho que a pandemia proporciona algumas décadas de sobrevida, e, sim, ele continuará por mais um período como termômetro econômico.

 E sobre a forma de trabalhar, o home office virou necessidade e uma nova realidade? Como irá impactar outros segmentos, como o comércio?

 O home office já é uma realidade na Europa e Estados Unidos, enquanto que o Brasil vem adotando de forma tímida onde as empresas avaliam reduzir custos imobiliários como também oportunidade para oferecer mais qualidade de vida aos funcionários. Nas empresas que tenho atuado, o home office vem sendo adotado, mas é certo que a cultura e processos ainda não estavam preparados 100%. Independente da empresa ou setor, a digitalização e automação dos processos estavam longe, mas agora será um tema muito discutido. E  será nova necessidade como realidade.

 Como irá impactar outros segmentos, como o comércio? E o que fazer?

Todos os negócios serão impactados e, para o empreendedor, a questão é como alcançar o consumidor, pois o fluxo se inverteu, e esse é o maior desafio. A demanda pode ter se reduzido mas ela ainda existe. Reflita em qual canal que você irá alcançar seu público (WhatsApp, Facebook, loja on-line ou plataforma virtual) e como irá atendê-lo.


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