São José do Rio Pardo, ,

06/Nov/2026 - 14:30:07

Quem morreu?

Arioswaldo Rizzo de Andrade




Há alguns anos, nas cidades do interior, velório tinha endereço certo: a casa da família ou alguma igreja. Ainda não existiam esses espaços especialmente destinados a receber o corpo para as últimas homenagens.

E foi justamente numa dessas situações que vivi uma das cenas mais engraçadas — e, confesso, mais constrangedoras — da minha vida.

No início da minha carreira no Magistério, eu dava aulas em várias escolas. Como ainda não havia a facilidade dos automóveis para todo mundo, eu ia de uma escola para outra com os próprios pés. E havia uma vantagem nesse percurso: sempre encontrava alguém conhecido pela rua.

Cidade do interior era assim. Caminhar pelas ruas era quase como abrir um jornal.

— Bom dia!

— Como está a família?

— E o fulano, melhorou?

— Você soube da novidade?

E, entre uma conversa e outra, a gente colocava as notícias em dia.

Certo dia, estava eu a caminho da escola da Vila Pereira, onde daria duas aulas de Arte no Ciclo Básico. Ao passar pela Igreja de São Roque, percebi que havia um velório.

Entrei discretamente no templo, carregando minha bolsa e os materiais de Arte.

Logo reconheci várias pessoas. Durante muito tempo havia morado naquele bairro e, naquela época, em cidade pequena, praticamente todo mundo conhecia todo mundo.

Fui caminhando em direção à urna funerária.

Tenho para mim que, quando vamos a um velório, devemos ver o falecido. Afinal, no aniversário cumprimentamos o aniversariante; no casamento, cumprimentamos os noivos; e, no velório, temos que ver quem morreu!

É uma questão de educação.

Pelo menos era essa a minha teoria.

O problema é que eu não sabia quem tinha morrido.

Mas perguntar seria muito indiscreto.

Imagine eu chegando para alguém:

— Quem morreu?

Ia parecer que eu estava mais interessado na notícia do que na pessoa.

Então resolvi descobrir por conta própria.

Pelo caminho encontrei dona Liba.

— Olá, dona Liba! Tão novo... faleceu?

Ela me respondeu com aquela expressão triste de quem estava diante de uma tragédia.

Mais adiante encontrei Lena.

— Oi, Lena. Fiquei muito triste...

Depois encontrei seu Aristides.

— Como vai, seu Aristides? Fiquei muito triste ao saber do falecimento.

E assim fui cumprimentando as pessoas.

Todos me olhavam com tristeza, eu fazia cara de tristeza, apertava mãos, balançava a cabeça e dizia palavras de solidariedade.

Só havia um pequeno detalhe:

Eu não fazia a menor ideia de quem estava morto!

Mas também não podia perguntar.

Afinal, eu já havia cumprimentado tanta gente que, naquele momento, perguntar seria praticamente confessar minha ignorância.

Continuei avançando.

Meu objetivo era chegar até a urna funerária e finalmente descobrir o nome do falecido.

Mais alguns passos...

Mais algumas pessoas...

Mais um “meus sentimentos”...

E finalmente eu estava quase lá.

Só faltava olhar para dentro da urna.

Foi quando, para minha completa decepção, os responsáveis pelo velório fecharam o caixão!

Não consegui ver o falecido.

Fiquei ali, parado, olhando para a urna fechada e pensando:

“Mas, afinal de contas, quem morreu?”

Pouco depois, o cortejo saiu da igreja.

O caixão foi colocado no carro da funerária e eu fiquei na escadaria da Igreja de São Roque, olhando o carro partir e tentando resolver aquele mistério.

Eu tinha ido ao velório.

Cumprimentado a família.

Cumprimentado os amigos.

Dado meus sentimentos.

Feito cara de tristeza.

E não sabia quem havia morrido!

Mas eu precisava ir para a escola.

Continuei meu caminho.

Quando cheguei, uma professora amiga me perguntou:

— Onde você estava?

Respondi naturalmente:

— No velório, lá na igreja.

Ela arregalou os olhos:

— Você foi ao velório do Bastião?

— Do Bastião?

— Sim!

Foi então que levei aquele choque.

— O Bastião, meu amigo de infância, morreu?!

— Morreu. Estava sendo velado na igreja.

Minha Nossa Senhora!

Eu havia acabado de participar do velório do meu próprio amigo de infância... e não sabia que era ele!

Naquele momento fiz uma retrospectiva mental.

Dona Liba: “Tão novo e faleceu?”

Lena: “Fiquei muito triste...”

Seu Aristides: “Fiquei muito triste ao saber do falecimento.”

E eu, elegantemente, respondendo a todos como se soubesse exatamente do que estavam falando.

Só faltou alguém me perguntar:

— Você quer dizer algumas palavras sobre o falecido?

Eu provavelmente responderia:

— Claro! Mas primeiro alguém poderia me dizer quem é o falecido?

Hoje, quando me lembro daquele episódio, penso que talvez eu tenha sido a única pessoa que conseguiu ir a um velório, cumprimentar praticamente todos os presentes, prestar condolências à família, acompanhar a saída do cortejo... e sair de lá sem descobrir quem tinha morrido.

E o pior de tudo: o morto era meu amigo!

Se naquela época existisse o celular com internet, eu teria resolvido o mistério em dois minutos.

Mas não existia.

Então só me restou continuar caminhando até a escola, com minha bolsa de professor de Arte debaixo do braço e uma pergunta martelando na cabeça:

“Meu Deus... quem morreu?”

Só descobri quando cheguei à escola.

E foi assim que aprendi uma importante lição sobre os velórios de antigamente:

nunca tenha vergonha de perguntar quem morreu.

Porque, se não perguntar, você pode acabar descobrindo tarde demais que estava chorando pelo amigo errado... ou, pior ainda, que estava cumprimentando todo mundo no velório do seu próprio amigo sem sequer saber!


Jornal Rio Pardo - 2025/2025 - Todos direitos reservados