São José do Rio Pardo, ,

31/Out/2026 - 13:16:40

O jacaré ladrão de peixes

Felipe Quessada




Dizem que, no rio, existem peixes espertos, pescadores mentirosos e jacarés famintos. Mas, numa pescaria daquelas que só acontecem com quem tem o azar de contar depois, os pescadores rio-pardenses Ricardo de Souza, Sebastião da Funilaria, Eduardo Cândido, Aluísio do Estacionamento, Ivan da Pinga, Adriano Policial, Nilton Repolho e Renato Vechi descobriram que o maior ladrão da região da Pousada Global, no rio Paraguai, não usava vara, anzol nem molinete. Nadava debaixo d’água, tinha quatro patas, uma boca enorme e, melhor de tudo, não precisava pagar a conta do almoço!

Entre os dias 16 e 26 de setembro, a turma pescava tranquilamente, cada um com sua tralha e suas esperanças — algumas bem maiores que os peixes que realmente apareciam. De vez em quando, um pintado dava as caras, uma dourada-cachorra resolvia colaborar e os pescadores comemoravam como se tivessem acabado de fisgar o peixe do século. Os exemplares capturados eram amarrados pela boca com uma corda e mantidos na água para serem fotografados mais tarde e, depois, devolvidos ao rio. Enquanto isso, os donos se distraíam com conversas, cerveja gelada e histórias que cresciam a cada rodada.

Foi então que surgiu o verdadeiro especialista em aproveitar distrações: um jacaré malandro, que observava tudo com a paciência de funcionário esperando a hora de bater o ponto. Sem fazer alarde, aproximava-se dos peixes, abocanhava um deles e desaparecia na água. Quando os pescadores olhavam de novo, faltava mais um! O sujeito não precisava nem de licença de pesca: trabalhava no sistema self-service.

— Uai, gente! Eu tinha colocado cinco peixes aqui! Agora só tem três! — reclamou Ricardo, coçando a cabeça.

— Você está ficando velho! Além de não enxergar a boia, está esquecendo até os peixes que pesca! — provocou Sebastião.

Adriano, que acompanhava a cena com os olhos semicerrados, começou a desconfiar. Já tinha visto peixe escapar, linha arrebentar e pescador aumentar a história, mas peixe amarrado desaparecer daquele jeito era novidade até para ele.

— Tem ladrão nesta pescaria! — anunciou, com a autoridade de um delegado de cidade pequena.

Ivan da Pinga, mais preocupado com a cerveja do que com os peixes, respondeu na lata:

— Ladrão nada! Isso é coisa da sua cabeça! Peixe não desaparece sozinho!

— E desde quando você entende de desaparecimento? Ontem você perdeu a carteira, o boné e quase esqueceu a própria vara no quarto! — rebateu Adriano.

A discussão só terminou quando Nilton Repolho resolveu assumir a vigilância. Sentou-se ao lado das cordas, cruzou os braços e jurou que ninguém levaria mais um peixe sequer. O problema é que, dez minutos depois, já estava contando a história de um dourado tão grande que precisou de três testemunhas, duas fotografias e uma fita métrica emprestada para provar o tamanho.

Foi justamente nessa hora que o jacaré voltou. Aproximou-se devagar, ergueu a cabeça, olhou para um lado, olhou para o outro e, num movimento certeiro, abocanhou mais um peixe!

Nilton ouviu o barulho, virou-se e deu de cara com o réptil.

— OLHA O JACARÉ! O JACARÉ ESTÁ ROUBANDO NOSSO PEIXE!

A gritaria foi tão grande que Renato pulou no rio, Aluísio agarrou o remo e Eduardo — que jurava não ter medo de coisa nenhuma — subiu no motor de popa. Se o jacaré tivesse pedido uma cerveja, provavelmente teria recebido também, só para a turma não precisar chegar mais perto dele.

Ricardo, tentando preservar a dignidade, agarrou a vara e declarou:

— Comigo, esse bicho não se cria! Se quer peixe, vai ter que pescar!

Renato olhou para ele, deu uma risadinha e disparou:

— Então empresta sua vara para o jacaré! Pelo menos ele já sabe onde os peixes estão. Você está aqui há seis horas e só pescou uma botina!

No fim das contas, os amigos descobriram que o jacaré era o pescador mais eficiente da turma: não gastava com isca, não perdia anzol, não precisava de piloteiro e ainda escolhia os melhores exemplares do cardápio. Enquanto os homens discutiam quem tinha pescado mais, o danado fazia a refeição por conta própria. E sem precisar contar vantagem depois — bastava mostrar a barriga cheia.

Ricardo resumiu a situação com a sabedoria de quem entende muito de pescaria, principalmente quando não precisa pescar:

— Turma, aprendi uma coisa hoje: no rio, a gente precisa tomar conta da vara, da cerveja e dos peixes!

— E do barco também! — completou Ivan.

— Do barco, por quê?

— Porque, do jeito que você é distraído, daqui a pouco o jacaré leva o barco, você fica na margem e ainda conta para todo mundo que pescou um crocodilo!

E assim terminou mais uma pescaria memorável. Os pescadores voltaram para casa contando vantagem; o jacaré voltou para a água de barriga cheia; e os peixes que escaparam tiveram a sorte de não encontrar nenhum pescador dormindo na margem. Naquela noite, pelo menos um sujeito foi dormir satisfeito com o resultado da pescaria — e não foi nenhum dos homens.

Moral da história: pescador desatento vira freguês de jacaré! Quando os peixes ficam amarrados na água, sem condições de escapar dos predadores naturais, é bom manter a vigilância. Afinal, o jacaré não acredita em história de pescador, mas entende muito bem o conceito de almoço grátis!


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