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08/Jun/2026 - 12:06:29
Entre lições e caminhos: minha homenagem a Lázaro Chaves
Miguel PaiãoLamentei profundamente não poder estar presente ao velório de Fernando Locquaz. Eu estava em São Bernardo do Campo, a trabalho, quando recebi a triste notícia de seu falecimento, na segunda-feira, 1° de junho. A distância impediu a despedida, mas não diminuiu a gratidão e o respeito que sempre senti por ele.
Fernando Locquaz (Loquaz, pessoa que fala muito) foi o nome adotado por Lázaro Curvelo Chaves (1959-2026) na publicação do livreto “A Serpente que Queria Voar”, obra que me presenteou em 1993, quando eu era seu aluno na Escola Estadual Euclides da Cunha. Naquele período, sem que eu pudesse imaginar, ele começava a exercer uma influência importante na minha formação.
Foi Lázaro Chaves quem me convidou a ingressar no Partido dos Trabalhadores (PT), filiação que viria a ser oficializada posteriormente pelos companheiros Francisco de Souza Pereira Filho, o Chico do PT, e Luiz Braghetta Magalhães, o saudoso Sr. Luizinho Braghetta. Também foi ele quem despertou em mim o interesse pelas ciências humanas. Seu entusiasmo ao lecionar, sua disposição para debater filosofia, sociologia e política, além de sua capacidade de estimular a reflexão, ajudaram-me a compreender o mundo sob novas perspectivas. Tenho convicção de que esse sentimento é compartilhado por muitos outros alunos que tiveram o privilégio de assistir às suas aulas.
Sua trajetória de vida foi marcada por escolhas corajosas. Formado sargento pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá, serviu no Rio de Janeiro antes de decidir seguir outro caminho, cursando Sociologia na Universidade Federal Fluminense. Após quinze anos na Força Aérea Brasileira, optou pela magistratura e pelo ensino. A mudança para São José do Rio Pardo exigiu adaptação. Ele próprio costumava dizer que passou meses praticamente recolhido, estudando intensamente antes de iniciar sua nova fase como educador.
Conheci Lázaro pouco tempo depois de sua chegada à cidade. Ele havia se mudado para São José em julho de 1992, embora sua família já residisse aqui desde 1982. No ano seguinte, tive a satisfação de ser seu aluno. Mais tarde, ele se tornou o paraninfo de nossa turma e, alguns anos depois, voltaria a ser meu professor no cursinho Objetivo, na Avenida Brasil.
Recordo-me dos encontros semanais que tínhamos na redação do jornal Democrata, na Rua Rui Barbosa, onde eu trabalhava como repórter. Com sua inseparável maleta, passos apressados e fala sempre eloquente, Lázaro passava para entregar seus artigos, cuidadosamente datilografados em sua máquina de escrever elétrica, que seriam publicados no semanário. Também participei, ao lado de outras pessoas, de um grupo de estudos que se reunia aos sábados em sua residência, então localizada na Avenida Nove de Julho. Eram tardes de aprendizado, reflexão e convivência que deixaram marcas profundas em todos nós.
Em 1998, fui novamente agraciado por ele com um presente especial: um exemplar autografado de “Caminhos da Redenção”, livro que guardo até hoje com carinho.
Além de professor, Lázaro Chaves teve importante atuação na vida cultural da cidade. Como diretor da Casa Euclidiana, durante a gestão do ex-prefeito Richard Celso Amato, recebeu o presidente Lula nas instalações da instituição, conduziu uma das últimas grandes reformas estruturais do prédio e foi responsável por viabilizar, junto à Fundação Nestlé, a doação das telas do artista Otoniel Fernandes Neto para o acervo euclidiano. Também lecionou, ainda que por um breve período, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, hoje FEUC.
Com o passar dos anos, os caminhos naturalmente se distanciaram. Algumas convicções ideológicas e posicionamentos diferentes também contribuíram para isso. Ainda assim, jamais deixei de respeitá-lo e admirá-lo. O tempo pode ter alterado circunstâncias, mas nunca apagou a importância que ele teve em minha formação.
Nossa última conversa aconteceu na antiga agência do Banco do Brasil da Rua Marechal Deodoro. Foi um encontro breve, marcado pela cordialidade e pela sinceridade. Havia certo distanciamento, é verdade, mas também muito respeito mútuo. E é assim que escolho guardar sua lembrança.