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19/Mar/2022 - 23:25:27
A história de um criado
Nivaldo Sernaglia
Outro caso verídico relatado por Allan Kardec no livro O Céu e o Inferno.
Pergunta: ? Hoje são raros os exemplos de dedicação. A dedicação está em extinção?
Resposta: ? "Sim, acusai a feição egoísta e orgulhosa de vosso século, agravada pela incredulidade e pelas ideias materialistas. A cobiça e a avidez do ganho antepõem-se em detrimento da abnegação e da verdadeira fé. A sorte da Humanidade é que a Doutrina dos Espíritos Superiores aí está para reviver virtudes esquecidas."
Essa resposta foi dada por um criado, um jovem que desencarnou cedo e foi evocado na Sociedade Espírita de Paris por Allan Kardec. Esse caso está no livro O Céu e o Inferno, sob o título "A História de Um Criado".
O criado era um jovem que servia a uma família de alta posição. Seus traços fisionômicos e sua inteligência surpreendiam pela distinção. Ele era dedicado a servir seus patrões com excelência, mas sem ostentar servilismo. Sentiram muito sua falta quando, em uma viagem à sua terra natal, uma febre o fez falecer. Durante a evocação na Sociedade Parisiense, ele explicou, além da resposta acima:
? "Na penúltima encarnação, nasci em boa família, mas nossos bens foram dizimados pelas prodigalidades de meus pais. Eles ficaram depressivos e desencarnaram em seguida, deixando-me órfão. Um grande amigo de meu pai adotou-me como filho e deu-me uma educação primorosa. Essa educação suscitou em mim uma leve vaidade, que levei comigo ao espaço. Convidado a reencarnar, pedi para servir ao Sr. G., que havia sido meu protetor, para expiar meu orgulho sob a condição de criado. Assim, provaria minha dedicação ao meu benfeitor. E por sorte consegui salvar sua vida sem que ele soubesse. Evitei que fosse esmagado por uma grande árvore enquanto passeava a cavalo. Eu o seguia e percebi o perigo iminente; com um grito lancinante, fiz com que ele recuasse rapidamente antes que o tronco caísse."
P.: ? Por que desencarnaste tão jovem?
R.: ? "Porque Deus julgou suficiente a prova."
P.: ? Como pudeste aproveitar essa provação sem ter noção de sua causa anterior?
R.: ? "Pela intuição e pela humildade de minha condição, que lutava contra a vaidade e o orgulho. Consegui dominá-los, tornando proveitosa a provação que teria de recomeçar."
Reflexão:
Esse criado nos ensina que estaremos repetindo as lições aqui na Terra até que vençamos os obstáculos e mazelas que trazemos em nosso espírito de vidas anteriores.
Ele ainda acrescentou:
? "Nos momentos de liberdade do meu espírito durante o sono, lembrava-me do que fui. Ao despertar, sentia um desejo intuitivo de resistir às más inclinações."
Há 160 anos, por meio de Kardec, o criado ensinou sobre a importância do desprendimento espiritual durante o sono ? o desdobramento pelo qual os instrutores nos transmitem lições preciosas para nosso dia a dia.
Ele continua:
? "Sem essa lembrança, o orgulho não teria sido dissipado; ao contrário, teria se exaltado, perturbando-me. Desse modo, pude combater as influências nocivas de minha nova condição."
Essas palavras reforçam que a vida encarnada é uma verdadeira guerra contra nossos próprios defeitos, como orgulho, vaidade e personalismo, que obscurecem virtudes como caridade e humildade. Felizmente, durante o sono, a inspiração dos amigos espirituais auxilia nossa intuição ao despertar.
Pergunta: ? Uma vez que não é possível lembrar os conhecimentos adquiridos, de que serviu a educação que recebeste?
Resposta: ? "Esses conhecimentos seriam supérfluos dada minha posterior condição. No entanto, ficaram em estado latente no meu inconsciente para que hoje os reencontrasse. Apesar disso, eles não foram inúteis, pois, ao desenvolverem minha inteligência, incentivaram minha predileção por coisas elevadas e minha repulsa a exemplos ignóbeis."
P.: ? A abnegação do criado para com os patrões tem origem em relação anterior?
R.: ? "Sem dúvida! Esse é um caso comum. Muitas vezes, criados são membros da própria família ou, como no meu caso, escravos da gratidão, procurando saldar uma dívida e progredir na dedicação. Não compreendeis os efeitos da simpatia gerada por relações anteriores? A morte não interrompe essas ligações, que podem perpetuar-se por séculos."
P.: ? Por que são raros, hoje em dia, esses exemplos de dedicação?
R.: ? "O ego, o orgulho e a vaidade são os vilões. A materialidade contribui para que o ser humano esqueça de Deus, de Jesus e do bem ao próximo. Quando o Espiritismo reviver virtudes esquecidas, haverá uma grande mudança no seio da sociedade."
Fonte: ?O Céu e o Inferno?, Allan Kardec
Becerábia, São José, 16 de fevereiro de 2022